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terça-feira, 22 de julho de 2025

 Falando de Amor

Falando de Amor é uma composição de 1978, com letra e música do próprio Tom.

A composição foi iniciada no Hotel Adams em Nova Iorque, onde Jobim passava lua de mel com sua segunda esposa, Ana Lontra Jobim. A informação consta de artigo no site Lyrical Brazil, baseado no livro Tom Jobim: Histórias de Canções de Wagner Homem e Luiz Roberto Oliveira.



Falando de Amor consta do álbum Miúcha 7 Tom Jobim vol. 2, de 30 de novembro de 1978.


É efetivamente uma declaração de amor e um pedido de correspondência. Um choro-canção em modo menor em forma A-B-A, conforme destacado por Carlos Almada (A Harmonia de Jobim) calcado "em uma espinha dorsal de sonoridades diminutas".

Há uma gravação do próprio Tom com arranjo muito próximo ao que vamos tocar.

https://open.spotify.com/track/3iIqvbmF2kVgRf8C9xdrKS?si=oEajTwVnTpaeInJuit_CfA

domingo, 20 de julho de 2025

Derradeira Primavera

Chegamos então à decana de nosso repertório. Derradeira Primavera foi composta em 1962 e é fruto da parceria de Tom Jobim com Vinícius de Moraes. Excelente oportunidade para comentar um pouquinho sobre esse feliz encontro para a música popular brasileira.

Tom e Vinícius foram apresentados por um amigo comum, Lúcio Rangel, em 1956. Na ocasião, Vinícius estava envolvido com a montagem de sua peça teatral Orfeu da Conceição, que havia escrito em 1954. Coube a Tom Jobim a trilha sonora, que foi gravada em 1956, em "alta-fidelidade" pela Odeon.

A capa, linda e atual, é o que é: um porta-jóias. Merece um merchandising: o álbum encontra-se disponível no Spotify, com as seguintes faixas:
  1. Ouverture (peça orquestral)*
  2. Monólogo de Orfeu (sobre a Valsa de Eurídice)
  3. Um nome de mulher 
  4. Se todos fossem iguais a você 
  5. Mulher, sempre mulher 
  6. Eu e o meu amor
  7. Lamento no morro 

*inevitável pensar em Villa-Lobos...

Bom, a partir deste início fulgurante, a parceria e a amizade Tom-Vinícius permaneceu fecunda, constituindo-se em uma das pedras fundamentais da Bossa Nova, com composições como Garota de Ipanema, Corcovado, Samba do Avião, Ela é Carioca, Insensatez, e Eu sei que vou te amar. Talvez sejam essas as composições que mais imediatamente vêm à memória quando falamos de Tom Jobim.

Mas, foco, cidadão, o assunto é Derradeira Primavera. 

Após uma introdução, digamos, alegre e ensolarada de 8 compassos alicerçada em acordes de Dó Maior com sétima maior e Ré menor com sétima, o clima se transforma, e uma atmosfera de melancolia se instala. Estamos diante do término de um relacionamento, de um lamento profundo pela perda. Letra e música unidas para a expressão de sentimento profundo de tristeza. Pungente.

Com vocês, mais uma vez, Nana Caymmi. O arranjo, conduzido por Mário Adnet é muito próximo ao que iremos executar.

https://youtu.be/nkapOU-Cu7g

CQD


 

sábado, 19 de julho de 2025

Chora Coração

Continuando em ordem alfabética, Chora Coração é também uma composição integrante de uma trilha sonora. Neste caso, de um filme: A Casa Assassinada, dirigido por Paulo Cesar Saraceni em 1971. 

O roteiro do filme é uma adaptação do livro Crônica da Casa Assassinada, de Lúcio Cardoso.


Sobre Chora Coração e toda a trilha sonora de A Casa Assassinada encontrei um artigo maravilhoso de autoria de Ney Costa Santos, coordenador do curso de cinema da PUC/Rio. 

Destaco alguns trechos, o que não dispensa a leitura do texto integral:

Para expressar a intensidade emocional do romance e de sua adaptação para o cinema, Tom Jobim trabalhou as variações de uma melodia que tem um lirismo bem brasileiro, talvez hoje perdido, mas que bem expressa o pathos emocional que atravessa o livro e o filme. Tom partiu do tema do schottisch Iara, um tipo de polca mais lenta e dançante, composta pelo maestro Anacleto de Medeiros. Anacleto foi um notável músico popular brasileiro, compositor de valsas, choros, polcas e peças sinfônicas para a banda do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, organizada e dirigida por ele. A música foi composta para homenagear a guarnição do barco Iara, vencedor de uma prova na regata de São Roque, em Paquetá, em 15 de novembro de 1896. Anos depois a melodia ganhou uma letra gongórica e ultrarromântica de Catulo da Paixão Cearense, foi gravada por vários cantores na primeira metade do século passado e ficou conhecida como Rasga Coração. 

Anos mais tarde, Heitor Villa Lobos utilizou o tema principal de Iara/Rasga Coração para costurar a exuberante orquestração do Choro nº 10 para orquestra e coro. É intensamente belo o resultado sonoro obtido com a melodia singela de Anacleto, passeando entre as massas sonoras e o ritmo pulsante. Mais uma vez, Villa Lobos revela sua capacidade de representar algo intraduzível em palavras, algo que poderíamos chamar de alma do Brasil profundo, ou aquilo que o pesquisador Irineu Guerrini Junior chamou de “alegoria sonora da Pátria”, comentando o uso da música de Villa nos filmes do Cinema Novo.

Na Casa Assassinada, Tom Jobim partiu do tema de Anacleto e trabalhou variações e desenvolvimentos. A música é logo apresentada nos créditos iniciais do filme, porém em uma versão diferente daquela que, em 1973, com letra de Vinicius de Morais, Tom Jobim gravou nos Estados Unidos, mantendo a fidelidade emocional ao texto de Lucio Cardoso e ao filme de Saraceni. 

A música escrita por Tom Jobim para a Casa Assassinada vai além da funcionalidade da música para cinema. O tema principal é muito mais que o comentário de cenas ou personagens. É um milagre, como o canteiro de violetas entre a fogueira das paixões que consomem a casa e os personagens e a delicadeza do perfume das flores no jardim abandonado.

Resta pouco a acrescentar. A suíte Casa Abandonada consta de quatro composições: Trem para Cordisburgo, Chora Coração, Milagre e Palhaços, e Jardim Abandonado. Foi registrada no LP Matita Perê, de 1972, com arranjo de Claus Ogerman.


Um último comentário: é imediata a associação de Trem para Cordisburgo com o Trenzinho do Caipira de Villa-Lobos.




 

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Chanson pour Michelle 


A trilha sonora da série de TV "O Tempo e o Vento" foi lançada em LP (lembram?) em 1985 e em CD em 2003.

No LP constam seis temas de Jobim, concebidos para a série: Passarim (com sua maravilhosa Abertura); Chanson pour Michelle; Rodrigo, Meu Capitão; Um certo Capitão Rodrigo; Bangzália; e Senhora Dona Bibiana.

Destes temas, dois são instrumentais: Bangzália e Chanson pour Michelle.

As demais composições tem letra atribuída ao próprio Tom (que era um grande letrista) e a Ronaldo Bastos, que assina Rodrigo, Meu Capitão e Senhora Dona Bibiana.

Chanson pour Michelle é uma canção de amor extremamente sedutora. Confesso que não consegui relacioná-la diretamente ao enredo de Érico Veríssimo. Mas incorporei-a ao meu enredo. E graças a este post e às pesquisas a ele relacionadas, fiz uma feliz descoberta ontem: a letra de Chanson pour Michelle, de autoria de Ronaldo Bastos, que transcrevi a partir da magistral interpretação de Nana Caymmi, constante do CD Falando de Amor, lançado em 2005.




Se puderem escutar, recomendo enfaticamente.

Eis a letra de Chanson pour Michelle (agradeço a ajuda de ma reine Valerie):

Tiens, ma belle

A canção que agora tens, Michelle,

Reconheço que eu roubei de ti

Só confesso porque tanto faz

Esconder

O que é

Bem mais claro do que a luz do céu

De Paris,

Viens, ma reine,

Toma o que é teu


Mil perdões

Se não deu pra te fazer feliz


O que é

Indizível mas se quer dizer

As canções

Têm o dom

De poder em rimas traduzir

Então mirar além da rima

Arriscar a ser preciso

Apostar que é possível

Remover montanhas


Cette chanson qui prends ton nom

Ma belle

Reconheço que eu roubei de ti

Aprendi a te chamar assim

E quem sabe um dia vens pra mim


Viens, Michelle,

Toma o que é só teu

De mais ninguém


Só teu de mais ninguém

Só teu de mais ninguém

Só teu de mais ninguém



Que coisa bonita.






quinta-feira, 17 de julho de 2025

 Abertura

Antes de iniciar os comentários sobre cada uma das peças escolhidas, cabe fazer uma propaganda. A fonte principal de todo o material que utilizei para os arranjos é o site do Instituto Antonio Carlos Jobim, jobim.org.

Os arranjos constantes do Cancioneiro Jobim, citado no post anterior, encontram-se todos no Acervo Jobim. Há outros acervos no site: Dorival Caymmi, Milton Nascimento, Paulo Moura, Chico Buarque, Gilberto Gil e Marieta Severo. Alto risco de contágio...

Bom, vamos falar da Abertura.

Os mais experimentados pelos anos (ufa...) devem lembrar da série de TV "O Tempo e o Vento", exibida em 26 capítulos de 22 de abril a 31 de maio de 1985. O tema de abertura da série e de cada chamada na programação era exatamente este.

A série é baseada na obra literária homônima do imortal (não da ABL...) Érico Veríssimo.

A trilha sonora da série foi gravada no álbum cuja imagem segue abaixo.




Encontrei o manuscrito abaixo no site do Instituto Jobim:




De acordo com o manuscrito, o tema, em 18 compassos 3/4 seria a introdução para a composição Passarim. Porém, ao pesquisar o arranjo feito por Paulo Jobim para Passarim, descobri que a "Abertura" havia sido deslocada para o final da exposição do tema principal, preparando sua repetição, constituindo a famosa "casa 1".

Bom, o que fazer?

Segui o coração. Tenho uma admiração profunda pelo tema da "Abertura". Avalio-a como um portal, um pórtico que nos permite vislumbrar um mundo de magia, o universo musical de Jobim. Assim, destaquei a peça para que esta sirva de abertura de nossa apresentação, a chave para o reino mágico. E preservei a estrutura do arranjo do Paulo Jobim. 

Desta maneira ouviremos o tema cromático descendente em terças por duas vezes durante nossa apresentação: no início e no seio de Passarim. Nunca é demais!

quarta-feira, 16 de julho de 2025

 Jobim: uma antecipação 

Antes de mais nada, devo desculpas por minha ausência nos últimos dias e pela interrupção da série de posts sobre a história da música popular brasileira. Prometo retomá-la em breve.


A justificativa para meu silêncio é que fui acometido de certa febre “jobiniana”. O contágio ocorreu ao rever antigos arranjos que havia elaborado ao longo dos últimos anos. Deu vontade de revisá-los, ampliá-los, adaptá-los à nossa atual formação instrumental e (já viu, não é?), acabei abraçado com oito arranjos que espero trabalhar com os amigos.


Em minha defesa, alego que trabalhar com a obra de Jobim, embora seja cronologicamente uma antecipação, não se caracteriza como uma mudança de assunto. Com efeito, Antonio Carlos Jobim figura com merecidíssimo destaque na história da música popular brasileira.


Preparei o texto abaixo para constar do folheto relativo à apresentação dos arranjos elaborados:



Lançado em 2006, o “Cancioneiro Jobim” é uma publicação em dois volumes que apresenta uma seleção das obras escolhidas de Antonio Carlos Jobim, incluindo arranjos para piano e uma biografia do compositor.


O projeto foi concebido pelo próprio Jobim e por seu filho Paulo Jobim. De acordo com a publicação, a trajetória criativa do compositor é segmentada em cinco fases.


A primeira fase (1947-1958) é principalmente formada por sambas-canções, em geral composições mais simples em comparação com obras posteriores.


A segunda fase (1959-1965) inicia-se com sua fecunda amizade com Vinícius de Moraes e é conhecida como a fase da bossa-nova, caracterizada por composições como Desafinado, Garota de Ipanema, Samba de uma nota só, Corcovado e outras, dentre as quais Derradeira Primavera.


No período seguinte (1966-1970), vivendo a maior parte em Nova Iorque e Los Angeles, Jobim inicia um afastamento da estética bossa-novista, assimilando influências do jazz e do blues. Pertence a esta fase Olha Maria.


De volta ao Brasil, Jobim experimenta fase de maior maturidade criativa (1971-1982). Suas composições adquirem certo sotaque villalobiano, com crescente interesse por temáticas ligadas à natureza e às questões ecológicas. São deste período Chora Coração e Falando de Amor.


A última fase (1983-1994) pode ser descrita como uma síntese da trajetória do compositor, na qual estéticas precedentes são revisitadas e recombinadas em novas experimentações. Gabriela, Passarim e O tempo e o Vento (Chanson pour Michelle) exemplificam este momento.


Texto-base: Almada, Carlos, A Harmonia de Jobim, Editora Unicamp, 2022.



Mas gostaria de comentar um pouco mais a respeito de cada peça que trabalhei e do porquê da escolha. É o que pretendo fazer nos próximos posts.


quinta-feira, 15 de maio de 2025

 

7. Novos gêneros musicais: a vinda da família imperial


Bom, retomemos nossa conversa.

Estamos no início do século XIX e o grande evento de nossa história é sem dúvida a vinda da família real, em destemida fuga das tropas napoleônicas.

O ano é 1808. Recorro a Jairo Severiano: "A vinda da corte provocou no Brasil um surto de civilização e desenvolvimento como a criação da Academia de Belas Artes, da Biblioteca Pública, do Banco do Brasil, do Jardim Botânico e, no âmbito da música, a introdução do piano, da valsa e de outras novidades europeias". 

O império do piano.

O piano foi inventado em 1711 por Bartolomeu Cristofori, sob a denominação "gravecembalo col piano e forte". Era a intenção de seu criador aperfeiçoar o cravo, facultando-lhe a produção de sonoridades fracas (piano) e intensas(forte).

Os primeiros pianos chegaram ao Brasil na bagagem da família imperial. A partir do final da década de 1820 começaram no Brasil a impressão musical e a venda de pianos. O piano tornou-se presença obrigatória nas salas das famílias de posses, símbolo de status social e bom gosto. Seu reinado durou até cerca de 1930, quando a expansão e popularização do rádio e a diminuição dos espaços domésticos, levaram à sua gradual substituição pelo violão, mais barato e menos "espaçoso".

Novas danças europeias.

Com a Família Real, uma série de danças europeias aporta em nossos trópicos: minueto, gavota, solo inglês, valsa e contradança (e seus derivados cotillon, quadrilha e lanceiro).

De todas estas danças, vingaram no Brasil a valsa e a quadrilha.

Sobre a valsa voltarei a falar mais adiante, dado seu lugar de destaque como gênero musical em nossa música popular e erudita.

Quanto à quadrilha, cabe aqui uma estória deliciosa em duas partes.

A quadrilha, de origem francesa, era a dança que abria os bailes da corte. Seu prestígio está ligado diretamente à monarquia. Com a quada da monarquia, a quadrilha sai de moda e troca os salões aristocráticos pelos terreiros juninos, acaipirando-se.

Mas vamos à primeira parte da estória. Por volta de 1850, um sapateiro português, José Nogueira de Azevedo Paredes, saudoso dos costumes de sua terrinha, propõe a alguns conterrâneos, em uma segunda-feira de carnaval, que saiam tocando bombos e tambores pelo centro do Rio de Janeiro. O desfile realizou-se com grande algazarra e vivas a um tal Zé Pereira, que poderia ser o próprio Zé Nogueira. O desfile tornou-se tradição, repetindo-se nos anos seguintes.

Anos depois (segunda parte), em 1869, a folia de Zé Nogueira inspirou o ator Francisco Correia Vasques a reproduzi-la num entreato cômico intitulado O Zé Pereira carnavalesco. Para tanto tomou "emprestada" uma cançoneta de Antonin Louis que constava da quadrilha "Les Pompiers de Nanterre" de L. C. Desormes. A quadrilha estava em cartaz no Teatro Lírico Francês. 


E viva o Zé Pereira,
Viva o Zé Pereira,
Viva o Zé Pereira
Que a ninguém faz mal,
E viva a bebedeira,
Viva a bebedeira,
Viva a bebedeira
Nos dias de carnaval